Noutro dia afirmaste, incrédulo, que eu não reparava em ti. Porque
eu te dizia que não me
lembrava o que trazias vestido da última vez que saímos. Tu dizias que estavas com uma
roupa diferente – tudo diferente, calças, camisa até sapatos!!! Eu não reparei.
Mas sabes porquê?
Porque não quero reparar.
Não quero olhar uma vez para ti e
decorar instantaneamente o que trazes vestido. Não quero lembrar-me que o perfume
que está dentro da cabine do elevador é o teu. Não quero saber essas coisas. Conhecer-te
os passos porque fui à varanda ver quem tinha chegado. Não quero saber-te o timbre da voz. E mesmo assim, sem querer, já
consigo perceber quando estás chateado. Acho que isso chega-me.
Consigo perceber quando estás a medir terreno, porque te
encostas a mim, os dois na ombreira da porta, a espreitar para dentro da minha sala de estar, cheia de gente alegremente a falar sobre o jogo de ontem – tu és parvo, estas pessoas não nasceram ontem e conseguem deduzir o 1 + 1 da nossa dança
de eu-não-dou-o-braço-a-torcer.
Tu encostas-te, eu deixo-me estar, mas vejo
logo a troca de olhares dos nossos amigos, que estão na sala. Sabes que não ter televisão numa sala abre espaço ao convívio e à observação? Quem vê de fora acha que os olhares são sobre o jogo de ontem, mas eu percebo – tu reparaste? – que os
olhares sobre são nós. E, por isso, continuo a não tomar-te atenção.
Porque eu sou péssima a mentir. O meu corpo não vai nessas
cantigas de enganar pessoas e faz-me corar quando menos quero, quando menos espero. E como sou
transparente, prefiro ficar na ignorância. Porque a ignorância é uma bênção e
enquanto andarmos (des)encontrados na vida é dela que preciso.
Ainda que,
a bem dizer, é a ti que eu quero. Mas agora não posso.
Agora não vai dar.
que acham? qq dia publico um livro, hein?
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